Reflexão sobre o futuro da comunicação e dos media
Reflexão sobre o futuro da comunicação e dos media
"Whoever control images, control minds"
A
frase de Bill Gates funciona como ponto de partida para pensar na profunda transformação que atravessa a comunicação, as imagens deixaram de ser acessórios das palavras e passaram a ser o local onde os sentidos, as emoções e a atenção são construídos. Vivemos numa era em que o poder da comunicação deixou de estar centrado na argumentação racional e deslocou-se para o impacto visual e emocional. As imagens não ilustram apenas o discurso, definem a forma como percebemos a realidade, como sentimos e como reagimos ao mundo que nos rodeia.
Esta mudança notou-se ao longo da evolução dos meios de comunicação, que acompanharam o avanço tecnológico e transformaram profundamente a forma como as sociedades produzem e partilham informação. Do impresso ao digital, cada avanço na tecnologia ampliou a velocidade, a escala e o alcance da comunicação.
Atualmente, são as grandes plataformas digitais e os algoritmos que determinam o que vemos, quando vemos e como estes conteúdos se tornam virais, ou acabam por desaparecer no fluxo interminável de conteúdos.
Ao mesmo tempo, a transição do regime da palavra para o regime da imagem alterou o próprio modo de pensar e interagir. O discurso através da escrita deu espaço a comunicação instantânea e fragmentada das redes sociais, onde prevalece a estética, o impacto e as emoções. Deste modo, quem domina a produção e circulação das imagens domina também a forma como as pessoas percebem o mundo e constroem opiniões.
A internet e a globalização, transformaram o mundo numa imensa rede interligada, onde a informação circula globalmente e em tempo real. As sociedades em rede, funcionam como verdadeiros sistemas, em que cada utilizador é produtor e recetor de informação. Contudo, esta democratização esconde uma nova dependência, quanto mais conectados estamos, mais sujeitos ficamos aos mecanismos invisíveis que filtram, selecionam e organizam o conteúdo que vamos acabar por consumir.
Neste novo contexto, a comunicação de massas perde o seu caráter linear, dando origem a uma esfera pública fragmentada. As antigas formas de media tradicionais, que reuniam grandes audiências em torno das mesmas mensagens, foram substituídas por espaços digitais personalizados, controlados por algoritmos que determinam o que tem visibilidade.
A crescente quantidade de informação nas redes trouxe um dos maiores desafios do nosso tempo, a distinção entre os factos verídicos e os falsos. A fronteira entre a informação, desinformação e contra informação tornou-se crucial. As fake news e os conteúdos verídicos circulam com a mesma rapidez, e por vezes deixam mais impacto. A desinformação deixou de ser um erro ou engano, passando a ser proposital como forma de influenciar opiniões, distorcer realidades e servir interesses económicos e políticos. Por outro lado, a contra informação, impulsionada diversas vezes por jornalistas, investigadores ou até mesmo cidadãos críticos, procura restabelecer a verdade e combater a manipulação.
As redes sociais, que se apresentavam como espaços de liberdade e partilha, tornaram-se verdadeiros centros de poder e consumo. As relações humanas, agora medidas pelas plataformas digitais, passaram a ser regidas por visualizações, likes, partilhas e comentários. Cada like e partilha alimentam um sistema económico baseado na vigilância e na exploração de dados. As plataformas não unem apenas pessoas, moldam comportamentos, promovem tendências de consumo e influenciam opiniões políticas. O utilizador, que pensa estar no controlo, é, na verdade, o produto central deste sistema monitorizado e direcionado por algoritmos invisíveis que definem o que ver e desejar.
Com o crescente avanço da Inteligência Artificial, a realidade ganhou uma nova dimensão. As máquinas já são capazes de criar textos, imagens, vozes e vídeos que imitam de forma quase perfeita a humanidade. A linha que separa o real da inteligência artificial torna-se cada vez mais difícil de reconhecer.
O futuro da comunicação depende, em grande media, da forma como a sociedade vai reagir a estes novos avanços da tecnologia. A literacia mediática e digital tornam-se essenciais para formar cidadãos capazes de interpretar os conteúdos que consomem e resistir a manipulação. É necessário exigir transparência nas plataformas, responsabilidade na utilização da tecnologia e políticas publicas que protejam os direitos digitais. Só assim será possível transformar a comunicação num espaço de construção democrática e não num instrumento de controlo.
A frase de Bill Gates, mostra-se mais atual do que nunca. O verdadeiro desafio do nosso tempo será garantir que este controlo não permaneça nas mãos de poucos, mas que se distribua de forma ética, consciente e participativa, para que a comunicação continue a ser um instrumento de liberdade e de pensamento, não de domínio.
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